Corrida de rua: o que ela te ensina

Correndo e aprendendo.

Nenhum nascer do sol é igual ao outro. Nenhuma rua de barro mantém a mesma textura por muitos dias. A areia da praia pode estar firme como um tapete ou fofa como um colchão de água. O vento pode estar forte ou fraco, quente ou frio. E tu só sabes colocando a cara na rua e conferindo. Aí começa a aventura.

PLANEJAR, REPLANEJAR E SE ADAPTAR

Sai pra fazer um treino de tiro na praia e vê que a maré subiu tanto que a areia ficou encharcada e fofa. Lá se foi o treino de tiro, mas pode virar um treino de resistência nas dunas. Ou mesmo aquela corridinha descalço tão boa de fazer. De quebra, já descobres se gostas mais de areia fofa ou firme, de correr descalço ou de tênis. 

Aprende a avaliar o céu, a usar os aplicativos e descobre que ainda assim, São Pedro ou Iansã adoram uma surpresinha.

Nasce uma meteorologista

Olha pro céu é avalia se vai chover ou não. Analisa se a mudança de vento trará tempestade com raios ou apenas chuva. Só depois checa o aplicativo, pra garantir. Chega um dia em que o vizinho te para na rua pra perguntar como vai ficar o tempo amanhã. É a tua fama de guru do tempo crescendo.

OUVIDOS: ATORES COADJUVANTES

Quando se começa a correr é bem difícil deixar de lado o fone de ouvido e a música, pois isso tira a atenção da respiração ofegante e das passadas pesadas, duas coisas que remetem a sofrimento. Mas depois de um tempo, principalmente quando já se aumentou bastante a quilometragem por treino, vai surgindo a necessidade de estar atenta justamente à respiração, às passadas, à postura e aos músculos. A atenção que tu dedicas aos sinais do teu corpo fará com que erros sejam corrigidos, lesões sejam evitadas e assim tu conseguirás correr mais e melhor. 

Parecem fofos, mas às vezes, é só tu virar as costas e eles avançam.

Além disso, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê, pode haver aquele motorista desatento ou mal intencionado que tira fino de ti. Ou aquele cachorro com cara de paisagem, que espera tu passar por ele para chegar na tua canela com vontade. Então, melhor ouvir os latidos ou o ronco do motor a tempo de fazer alguma coisa. 

A paisagem nunca é a mesma lá fora.

OLHOS PRA VER, SENTIR E TRANSFORMAR O QUE É BOM EM ENERGIA

Cai da cama e vai correr às seis da matina pensando que queria mesmo era ficar dormindo. Até ver o sol nascer e colorir o céu com matizes de laranja, rosa e azul. Percebe que há dois dias viu o mesmo sol nascer, mas havia algumas nuvens e as cores eram outras. Saca o celular e faz umas fotos pra registrar e compartilhar, porque tanta beleza pode animar algum outro corredor a cair da cama contigo. E nessa de contemplar, produzir e compartilhar, já se passaram uns três quilômetros e tu nem viste. Transformaste a beleza que entrou pelos olhos em energia para os músculos. 

Eles são pura sensibilidade.

MAIS SENSÍVEL QUE A SOLA DOS PÉS NUM LONGÃO

Jamais vais lembrar da sola dos pés se alguém te falar em sensibilidade, né? Só até o primeiro longão. Nos primeiros quilômetros tá tudo bem e nem lembras que tens pés. Passou dos dez quilômetros e tu já percebes que o asfalto tá um pouquinho inclinado pras laterais. Passou dos 20km e tu já sabes se a moedinha é de 25 ou de 50 centavos só de pisar nela. Se estiver em estrada de chão, vais colar nas laterais para evitar aquelas costelinhas que se formam no meio da pista. Toda essa informação sobre o chão vai direito da sola dos pés para a cabeça, que lá pelas tantas vai tentar te fazer parar. Controle mental a partir daqui é essencial. 

Pulmão e coração X Joelhos e quadris

Esse quarteto nem sempre está em harmonia. Morro acima, pulmões e coração perdem feio a briga. Querem saltar do corpo, numa ânsia de se livrar dessa louca que não tem mais nada o que fazer. Enquanto isso, joelhos e quadris quase não aparecem na cena.  Sorriem discretamente a vitória parcial, porque sabem que o jogo pode virar. Aí chega a hora de descer.

Coração e pulmões em festa, porque pra baixo eles vão na carga mínima. Tu já consegues falar, rir e tomar uma água. De repente, naquele trecho de descida mais íngreme, os teus joelhos dizem pra tu ir devagar. Se tu não respeitas, eles chamam os quadris e as panturrilhas pra manifestação. É quase um apitaço interno, impossível não ouvir. No final da morreba todos já fizeram as pazes.

E tu aí, o que aprendeste com a corrida?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *