Diário de uma Trip Trail

A quadrilha reunida antes da prova, com roupas quentes, mas só até o sol escancarar. Todo mundo de shortinho depois. Da esquerda para direita, Cris Cardoso, Kátia Nowicki, Luciana Freitas e Maria Regina Alves.

Junte quatro mulheres, adicione boa comida, hospedagem amiga e uma corrida de trilha em comum e a aventura começa.

Audax Trail Tur 2019, etapa São Francisco de Paula (RS). Essa foi a desculpa para juntar a quadrilha. Inverno, temperatura na casa dos 6ºC e a anfitriã em Porto Alegre avisa:

– Tragam roupa quente, que o frio aqui tá de renguear cusco.

O porta-malas do Lifan X60 lotou. Metade da bagagem foi no banco de trás. Entre cobertores, botas de pelo, mochilas de hidratação e tênis havia charque, salame, músculo, legumes, massa, vinho, pasta de amendoim, banana, panqueca e biscoitos. Encarar os percursos de 21km e 30km de barriga vazia não dá.

Parque Harmonia com clima de verão em pleno mês de julho.

POA 40º

Porto Alegre nos recebeu com um calor fora do comum para a época. Aquela blusinha curta que a gente só leva por desencargo de consciência ficou no couro dois dias seguidos. As botas de pelo nem saíram do porta-malas. Guaíba, Parque Harmonia, Gasômetro e chimarrão. O rolê por Porto Alegre aconteceu debaixo de sol. E veio a fome.

Macarrão a bolonhesa, ou como dizem os gaúchos, massa com guisado. E vinho. Afinal, em menos de 24 horas a gente vai correr pra cima, com altimetrias entre 900 e 1000 metros. Mas o cozido, ou puchero gaúcho,  para o dia seguinte já começa a ser preparado, porque depois de correr tanto ninguém terá vontade de pilotar o fogão. Aí a vizinhança do prédio começou a estranhar a agitação aromática no corredor.

– Nossa, esse andar está com cheiro de comida o dia todo.

A gente faz aquela cara de paisagem e sai do elevador segurando o riso, que explode alto assim que a porta se fecha.

Comida para o dia seguinte garantida, bora pra Decathlon. A gente inventa um monte de desculpinhas para justificar a ida nesse playground de adultos.

– Preciso só de um par de meias.

Mochila de hidratação, tênis, gel, corta-vento, fleece. Nessa hora não tem um amigo pra dizer: na volta a gente compra.

A PROVA SE APROXIMA

Noite anterior a prova. Água de coco pra hidratação. Massa com guisado. Creme de abóbora. Chá. Ansiedade pré competitiva. Idas intermináveis ao banheiro durante toda a noite. Às 4h30 a gente acorda com as olheiras no queixo pra se preparar e pegar a van que nos levará até São Francisco de Paula. Favorino Ritta Júnior é sócio proprietário da Vancars Transporte Executivo e Turismo e foi pilotando até São Chico. Ele também corre. Leva a galera e participa da competição. Promete salchipão pra todo mundo ao final da prova e ainda distribui um kit com biscoito salgado, mariola, paçoca e biscoito doce. O cara sabe estimular a turma.

Maria Regina na largada dos 30km. Friorenta, a nossa ultramaratonista foi a única do bando a encarar a prova de calça e manga comprida.

LARGADA

Tudo pronto para a primeira largada, dos 30km, às 10h30. Soa a sirene e lá se vai a Maria Regina Alves. Onze horas foi a largada dos 21km para Kátia Nowicki, Luciana Freitas e Cris Cardoso. Daí pra frente a aventura é vertical.

Luciana Freitas é a fera das subidas. E ainda encara a pirambeira sorrindo.

Uma descida longa no início que fez a gente se empolgar, mas só até começar a subida. Trilha recém aberta e molhada pela chuva da noite anterior. Muitas raízes, tocos e perau. Mata fechada, belíssima, com cachoeiras, xaxins, floresta de pinus, pastos extensos, estradas de chão. Os cenários eram de tirar o fôlego. As subidas também.

Kátia Nowicki dando aquele gás nos poucos trechos planos.

AS SURPRESAS NO CAMINHO E AS CHEGADAS

Luciana Freitas foi a única das quatro que não errou o percurso. Terminou os 21km em 3º lugar na classificação geral, em 2h54min. Regina errou a trilha, mas logo se achou. Fechou os 30km em 4º lugar na classificação geral em 3h52min. Kátia errou a trilha por dois quilômetros. Percebeu que estava em área de bugios, rolou ribanceira abaixo, voltou pra trilha certa e fechou os 23km em 7º lugar na categoria em 3h30min. E eu entrei errado na trilha dos 30km depois de já ter feito boa parte da trilha dos 21km. Aí era terminar em 32km ou desistir. Mas com promessa de salchipão com cerveja Raiz Trail no final, bora tentar. Fechei os 32km em 5h45min. Não tinha mais cerveja, mas tinha Regina, Kátia, Luciana e o pessoal do evento me esperando com animação. Favorino garantiu um salchipão pra aplacar a fome no caminho de volta pra Porto Alegre. Aliás, Favorino garantiu meu único item salgado na mochila de hidratação, a bolacha salgada do kit. Foi bom pra evitar câimbras que ameaçaram chegar nas panturrilhas. Botei na cabeça que os biscoitos resolveriam. E resolveram. Fui a última classificada na categoria dos 21km, em 13º lugar.

Só consigo fazer gracinha nas descidas.

O COZIDO

A quadrilha chegou em casa com os pés enlameados e estômagos vazios. Fogo aceso para aquecer o puchero tão esperado. Vinhos, pães, azeitonas. Mais uma da série perturbe os vizinhos com cheiro de comida boa. Fizemos tanto cozido que sobrou para os dias seguintes. Dizem que a Kátia está perturbando a vizinhança até hoje.

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