Ser mulher e correr por aí

16,4km feitos de madrugada, sob chuva.

Seis de abril de 2019. Dia da romaria noturna para a cidade de Imaruí (SC), durante a festa de Nosso Senhor dos Passos. Os relatos de anos anteriores davam conta de muita gente nas estradas fazendo os vinte e tantos quilômetros a pé. Romeiros de todo o estado vêm caminhando desde muito longe para pagar promessas e cultivar sua fé. O que uma mulher que gosta de correr à noite pensa? Esta é a ocasião perfeita pra fazer um longão noturno com relativa segurança, mas distante da vibe competitiva de uma prova. Treino conexão pessoal mesmo. Mas aí basta uma mudança no clima pro cenário mudar e a gente precisar se adaptar pra não desistir.

Chuva, muita chuva. Nem todo mundo gosta de andar na chuva. À meia-noite então, é de contar nos dedos quem encara por prazer. Eu sou uma dessas que ama correr na chuva à noite. Não julgo quem não gosta, porque ao contrário de muitos, não suporto correr com sol a pino. Então já sabia que seria difícil achar parceria e em nenhum momento cogitei desistir por isso. Correr sozinha é um bálsamo pra mim. Converso comigo mesma o tempo todo e nos entendemos bem! Mas eu não estava sozinha. Aquele fantasma da violência contra mulheres te ronda o tempo todo. Antes mesmo de sair, todo mundo te pergunta: – Vais sozinha mesmo?

E fui. Mas todo o plano teve que ser ajustado para que eu pudesse manter o treino. A ideia inicial era fazer uns 23km, a partir da igreja de Nova Brasília, em Imbituba. Pela programação oficial, à meia-noite caminhoneiros e romeiros receberiam bênçãos e dali partiriam em romaria até Imaruí. Cheguei 23h40 e não havia uma alma. Igreja fechada. Perguntei num quiosque de cachorro quente se alguém havia partido dali e me informaram que um grupo grande tinha saído havia uns trinta minutos. Mudança de plano: altera o ponto de partida. Fui de carro até encontrar o bando, que já estava a uns quatro quilômetros a frente. Se fosse homem, teria partido do ponto planejado sozinho?

Até aqui documentava os trechos, como numa corrida qualquer. Mas não era uma corrida qualquer.

Primeira curva do caminho e já havia um carro capotado. Meu pai, que foi me levar, já dizia apavorado:
– Tu devias desistir. Tá muito perigosa a estrada. Tem muita água na pista. Tá muito escuro.
Há várias formas de amar e eu entendo esse amor que quer te proteger da vida. Mas eu quero muito viver, sabe? Então, antes de levar adiante meu simples desejo de correr à noite na chuva, tive que reunir todos os argumentos possíveis para devolver a ele amor em forma de tranquilidade. Falei dos equipamentos de segurança que tinha, das pessoas que encontraria no caminho, dos cuidados que teria nos trechos sinuosos, que qualquer problema ligaria pra ele na hora. E o velho foi com o coração na mão me esperar em Imaruí.

Caminhei um pouco com o grupo para que eles soubessem da minha existência. Tinham dois carros de apoio mais a frente. Avisei que iria correndo, mas que se precisasse, voltaria até eles. Foram muito gentis e me deixaram tranquila. Parti. Feliz da vida com o barulho da chuva batendo no casaco impermeável, o cheiro de mato molhado, os olhares curiosos das vacas na beira da estrada. Conexão. Até chegar num trecho totalmente escuro.

Lanterna acesa, fui analisando o terreno. Dos dois lados da pista, nenhuma casa ou comércio. Além da falta de luz nos postes, o mato avançava sobre o já estreito acostamento. Tinha que correr na faixa branca, sobre a pista. Estava na contramão e carros passavam de vez em quando, cegando um pouco. Até aqui, risco igual pra todo mundo. Mas o fantasminha começou a aparecer quando o primeiro carro desacelerou ao me ver. Estaria preocupado com minha segurança? O pace melhora muito nessa hora, é fato. Mas a gente pensa:
– Só queria correr. É pedir muito?

Novo trecho iluminado e tudo seguiu como o esperado. Fôlego em ordem, músculos respondendo bem, corpo aquecido apesar do banho. Então passei por um puteiro de beira de estrada. Lá de dentro, um assovio. Outro corte na conexão dando passagem pro fantasma. Cada carro que vinha de trás poderia ter saído do puteiro, era o que o fantasma me dizia. Nova melhora no pace e novo trecho sem luz, com subida. A essa altura já havia se passado uma hora e eu precisava de gel de carboidrato. Mas a matemática de hidratação teve que esperar por uns 800m até o próximo trecho iluminado. O corpo segura quando a alma exige.

Mais um grupo de romeiros. Rezavam. Não quis conversar pra não atrapalhar a oração. Dei boa noite e segui devagar, pra ouvir aquele murmúrio o máximo de tempo possível. Foi uma conexão diferente. Respeitosa, tranquilizadora e que não era minha, mas me fez bem. Pensei que num dia sem chuva, correr nesse evento deve ser de uma paz incrível, porque se encontrasse mais gente na estrada com essa vibração serena, poderia correr o dobro da distância. Pensei também que a gente pode escolher viver assim, em paz e espalhando tranquilidade no entorno, mas muitos preferem soltar seus fantasmas e assombrar a vida alheia. Quanta incompetência pra amar.

Passei por mais dois ou três longos trechos sem iluminação. Em cada um deles, minha coragem foi exigida e respondeu bem. E a necessidade de trazer mais luz sobre esses fantasmas que assombram mulheres, questionar e provocar mudanças positivas nesse universo, ocupou o espaço do medo. A gente encontra fibra onde menos espera.

Chegada abençoada com sabor de vitória.

Os vinte e tantos quilômetros ficaram em 16,4km. Cheguei na Igreja de São João Batista, em Imaruí, a 1h45 da madrugada, quase uma hora antes do planejado. Fui recebida com um sorriso de alívio do meu pai e um abraço da minha madrasta. Imediatamente comecei a mandar mensagens de “cheguei” pra aliviar a ansiedade de amigos e familiares. Ninguém precisa sofrer pela realização dos meus desejos. E não seria assim se tivéssemos segurança. Deu tudo certo. E trouxe na bagagem um trombone. Vou começar a meter a boca, mulherada. Quero correr em paz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *